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Adoção internacional unilateral – Como funciona o processo


Em uma recente decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça nos autos do processo de Homologação de Decisão Estrangeira de n° HDE 144/EX, a parte demandada contestou a homologação da sentença estrangeira de Adoção Internacional Unilateral interposta pela sua ex-esposa, alegando em síntese que não teria sido citado no processo principal que tramitou nos Estados Unidos.

Depois de um casamento frustrado no Brasil que teve como resultado o nascimento de um filho e o abandono da família por parte do pai, a autora da ação decidiu mudar-se para os Estados Unidos na tentativa de construir uma nova vida naquele país.

Após algum tempo conheceu um novo parceiro e iniciou um relacionamento afetivo duradouro onde o estrangeiro aceitou o filho da companheira e começou a educá-lo como se pai fosse.

Com o transcorrer do tempo, decidiram iniciar o processo de Adoção Internacional Unilateral do menor no domicílio onde estavam residindo, uma vez que a situação já estava consolidada e o menor já estava inserido no bojo de um novo ambiente familiar com o padrasto assumindo todas as obrigações de um verdadeiro pai.

O processo transcorreu naturalmente na justiça estrangeira, só que, diante do total abandono por parte do pai biológico no que se refere as suas obrigações legais para com o filho desde o seu nascimento, não houve sua citação no processo, não obstante os esforços das autoridades estrangeiras de localizá-lo.

Depois do trânsito em julgado da sentença, a parte tentou homologar a decisão estrangeira no Brasil junto ao Superior Tribunal de Justiça para fins de alterar a filiação do pai biológico pelo adotivo no cartório de registro civil das pessoas naturais onde a criança teria sido registrada.

Durante o trâmite do processo de homologação, o pai biológico foi citado para se manifestar vindo a contestar a decisão estrangeira alegando que não teria sido citado na ação principal para se defender ou mesmo apresentar seus argumentos acerca daquele pedido.

Ao examinar o pleito, o Ilustre Ministro Relator entendeu que, não obstante o pai biológico ter se manifestado contrário ao pedido de adoção internacional unilateral, a situação já tinha se consolidado pelo tempo em benefício do menor, que teve o suporte do padrasto durante os anos de convivência pacífica e harmoniosa.

Ponderou que, segundo a legislação pátria, a adoção de menor que tenha pais biológicos no exercício do poder familiar pressupõe, para sua validade, o consentimento deles, exceto se, por decisão judicial, o poder familiar for perdido.

Ressaltou, entretanto, que, não se poderia formular exigências descabidas e inexequíveis, sob pena de se negar acesso à justiça nacional.

Ao final fez alusão ao abandono pelo pai do filho que se encontrava por anos convivendo em harmonia com o padrasto e que, visando legalizar uma situação familiar já consolidada pelo tempo, ingressou com a ação de adoção unilateral do menor que foi julgada procedente pela justiça estrangeira.

A decisão estrangeira foi homologada e os argumentos apresentados pelo pai na contestação não foram levados em conta, pelo que a sentença foi devidamente homologada, o que garantiu a eficácia legal e jurídica da decisão estrangeira perante as leis brasileiras.

Segue ementa do acórdão:


HDE 805/EX

HOMOLOGAÇÃO DE DECISÃO ESTRANGEIRA

RELATOR: Min. Og Fernandes

Corte Especial

Data Julgamento: 20/02/2019 Data Publicação: 27.02.2019


EMENTA


DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO. PROCESSUAL CIVIL. SENTENÇA ESTRANGEIRA CONTESTADA. DIVÓRCIO DECRETADO PELA JUSTIÇA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. ARTS. 15 E 17 DA LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO. ART. 960 E SEGUINTES DO CPC/2015. ARTS. 216-C, 216-D E 216-F DO RISTJ. REQUISITOS ATENDIDOS. PEDIDO DE HOMOLOGAÇÃO DE SENTENÇA ESTRANGEIRA DEFERIDO.


1. A homologação de decisões estrangeiras pelo Poder Judiciário possui previsão na Constituição Federal de 1988 e, desde 2004, está outorgada ao Superior Tribunal de Justiça, que a realiza com atenção aos ditames dos arts. 15 e 17 do Decreto-Lei n. 4.657/1942 (LINDB), do Código de Processo Civil de 2015 (art. 960 e seguintes) e do art. 216-A e seguintes do RISTJ.